Antes de ler: o que este exemplo é e o que não é

Todo o cenário a seguir — nomes, bairro, escola, números de participantes e datas — é fictício e foi inventado para fins de demonstração. Nenhuma atividade descrita aqui foi realizada por alunos reais.

A estrutura segue a lógica de uma disciplina de extensão em que o aluno recebe um roteiro no ambiente acadêmico e precisa preenchê-lo. Se o seu roteiro tem campos diferentes, ordem diferente ou exige etapas adicionais, vale o roteiro. Para entender o que é extensão universitária e como montar um projeto do zero, consulte /projeto-de-extensao/ e /como-fazer-projeto-de-extensao/.

O limite profissional que este exemplo respeita: o estudante de Ciências Contábeis pode orientar coletivamente sobre tributação, finanças pessoais e formalização. Não pode escriturar, assinar balanço, emitir parecer contábil nem prestar serviço privativo de contador registrado no CRC. Se a ação exigir qualquer um desses atos, ela sai do escopo da extensão de graduação e entra em exercício ilegal da profissão.

Contexto e problema observado: por que essa ação e não outra

Trecho do exemplo fictício: "Na feira livre do bairro Vila Nova Esperança, em Contagem-MG, a maioria dos feirantes opera na informalidade. Em conversa com a associação de moradores, a aluna Joana (nome fictício) percebeu que muitos desconhecem o que é o MEI, quais tributos ele envolve e como a ausência de registro impede acesso a crédito e a programas públicos. O problema identificado não é a falta de contador, mas a falta de informação básica sobre enquadramento tributário."

Comentário: o roteiro costuma pedir que o aluno mostre como chegou ao problema. Note que Joana não inventou a demanda: ela conversou com a associação. Isso diferencia uma ação extensionista de um exercício de sala. O erro comum aqui é escrever "a comunidade precisa de assessoria contábil" — isso ultrapassa o limite da graduação e configura serviço privativo. O recorte correto é educação e orientação coletiva.

Outro ponto: o problema precisa ser observável e verificável pelo próprio aluno. "Muitos desconhecem" vem de uma escuta. Se você não tem como justificar a observação, o roteiro vai apontar fragilidade.

Público e local, e como se chegou até eles

Trecho do exemplo fictício: "Público-alvo: feirantes com idade entre 25 e 60 anos que atuam na feira de sábado da Vila Nova Esperança. Local: salão comunitário da Associação de Moradores, cedido gratuitamente mediante carta de anuência. O contato inicial foi feito pela aluna em uma visita à feira, seguida de reunião com a presidente da associação, Dona Marta (nome fictício), que autorizou o uso do espaço e ajudou a divulgar a oficina entre os permissionários."

Comentário: especificar como o acesso ao local foi conseguido evita a pergunta clássica da banca: "mas quem autorizou você a entrar lá?". A carta de anuência não é exigência universal — varia por curso, matriz e período letivo —, mas é prática frequente. Consulte o roteiro oficial no seu ambiente acadêmico para saber se o seu formato exige documento assinado ou apenas registro no relatório.

Definir faixa etária e dia de funcionamento da feira mostra que o aluno conhece a rotina do público. Isso é diferente de escrever "comunidade carente", expressão vaga que não ajuda o leitor do projeto a entender quem será atendido.

Objetivo geral e objetivos específicos, escritos como o roteiro costuma pedir

Trecho do exemplo fictício: "Objetivo geral: oferecer orientação coletiva sobre formalização como Microempreendedor Individual aos feirantes da Vila Nova Esperança, ampliando o acesso a informação tributária básica. Objetivos específicos: (1) explicar, em linguagem acessível, o que é o MEI, quais tributos ele reúne e qual o custo mensal; (2) apresentar os documentos necessários para o registro no Portal do Empreendedor; (3) orientar sobre a emissão da guia DAS e o prazo de pagamento; (4) esclarecer dúvidas sobre transição de MEI para ME, sem aprofundar em escrituração."

Comentário: repare que todos os verbos estão no infinitivo e são mensuráveis pela ação em si. "Oferecer orientação" é verificável: a oficina aconteceu ou não. "Ampliar o conhecimento" é mais difícil de comprovar sem aplicar pré e pós-teste, o que nem sempre cabe no cronograma de uma disciplina.

O erro mais frequente em Ciências Contábeis é colocar como objetivo "realizar a abertura do MEI para os feirantes" ou "preencher a declaração anual". Isso é serviço contábil, não extensão. O objetivo deve parar na orientação e no esclarecimento. Se o roteiro do seu curso usa terminologia diferente (por exemplo, "competência a desenvolver" em vez de "objetivo específico"), adapte ao modelo recebido.

Justificativa ligada ao curso: por que um aluno de Contábeis faz isso

Trecho do exemplo fictício: "A ação mobiliza conteúdos das disciplinas de Contabilidade Tributária I e Noções de Direito Empresarial, já cursadas pela aluna. Ao traduzir a legislação do Simples Nacional e as obrigações acessórias do MEI para linguagem cotidiana, o estudante exercita a transposição didática do conhecimento técnico — habilidade prevista no perfil do egresso do curso. Além disso, a experiência expõe o aluno à realidade de pequenos contribuintes, contexto que dificilmente aparece em exercícios de sala."

Comentário: a justificativa precisa amarrar a ação a componentes curriculares que o aluno já cursou ou está cursando. Não basta dizer "é importante para a sociedade". O roteiro quer saber que conteúdo técnico está sendo aplicado e como isso contribui para a formação.

Evite citar artigos de lei como se fossem a justificativa em si. A lei é ferramenta; a justificativa é pedagógica e social. Também não afirme que "o CRC exige" ou que "o MEC determina" sem apontar o documento. Se não tem fonte, não cite.

Metodologia: o que foi feito, em que ordem, com que material

Trecho do exemplo fictício: "A oficina foi dividida em três blocos de 40 minutos, com intervalo de 15 minutos. Bloco 1: apresentação em slides com linguagem visual sobre o que é MEI, custo mensal e benefícios. Bloco 2: simulação no Portal do Empreendedor, projetada em tela, mostrando passo a passo do cadastro (nenhum dado real de participante foi inserido). Bloco 3: roda de perguntas com material impresso de apoio contendo glossário de termos tributários e calendário da DAS. Material utilizado: 12 cartilhas impressas em preto e branco, projetor cedido pela associação, formulários de presença e de avaliação de satisfação."

Comentário: descrever a sequência em blocos permite que quem leia o projeto entenda a logística sem precisar perguntar. O detalhe de que nenhum dado real foi inserido na simulação protege o participante e mostra consciência ética.

O erro comum é escrever apenas "será ministrada uma palestra". Palestra não descreve método. Diga se haverá interação, se o público fará perguntas, se haverá material para levar para casa. Em Ciências Contábeis, um recurso didático simples como um glossário de termos (DAS, CNAE, faturamento, desenquadramento) resolve a barreira de linguagem técnica.

Cronograma realista de uma disciplina

Trecho do exemplo fictício: "Semana 1-2: contato com a associação e levantamento de dúvidas dos feirantes. Semana 3-4: elaboração do material (slides, cartilha, glossário). Semana 5: ensaio da apresentação com colegas de turma. Semana 6: realização da oficina no sábado de feira. Semana 7: tabulação dos formulários de avaliação e redação do relatório parcial. Semana 8-10: ajustes e entrega do relatório final."

Comentário: dez semanas é um horizonte plausível para uma disciplina semestral, mas isso varia por curso, matriz e período letivo. Não trate este cronograma como modelo obrigatório: adapte às datas do seu roteiro oficial. O que importa aqui é a lógica: contato antes, preparação no meio, execução e fechamento depois.

Evite cronogramas com uma única data de execução e nada antes nem depois. O roteiro de extensão costuma valorizar a fase de planejamento e a fase de sistematização tanto quanto o dia da ação em si.

Evidências reunidas e as que não se deve produzir

Trecho do exemplo fictício: "Foram reunidos: lista de presença com nome e assinatura dos participantes (14 feirantes); três fotografias da oficina, com autorização de uso de imagem assinada; cópia em branco da cartilha distribuída; formulários de avaliação preenchidos. Não foram coletados: dados cadastrais dos feirantes, números de CPF ou CNPJ, informações sobre faturamento individual."

Comentário: a linha é clara. Você pode registrar que a oficina aconteceu e quantas pessoas participaram. Não pode coletar dados que permitam identificar a situação fiscal de cada um. Se um feirante pedir ajuda individual para preencher a declaração, o correto é orientá-lo a procurar o Sebrae, a Receita Federal ou um contador habilitado — e registrar esse encaminhamento no relatório, sem realizar o serviço.

Sobre fotos: peça autorização por escrito antes de fotografar. Para detalhes de enquadramento e ética na captação, consulte a página de evidências do portal. Não publique imagem de participante em rede social pessoal sem consentimento explícito.

Resultado da ação e como medi-lo sem inflar

Trecho do exemplo fictício: "Participaram 14 feirantes. No formulário de avaliação, 11 marcaram que agora sabem o que é a guia DAS e quando ela vence. Dois participantes procuraram a associação na semana seguinte para pedir orientação sobre abertura de MEI no Portal do Empreendedor — encaminhamento feito pela própria associação, não pela aluna. Não houve acompanhamento posterior nem verificação de formalização efetiva."

Comentário: o resultado honesto de uma oficina de três horas é esse: as pessoas saíram mais informadas. Não escreva "todos os feirantes se formalizaram" se você não acompanhou. Também não transforme dois encaminhamentos em "impacto na economia local". Meça o que a ação efetivamente permitiu medir: presença, compreensão imediata, encaminhamentos realizados.

Se o roteiro do seu curso pede indicador quantitativo, use o que você tem: número de participantes, percentual de respostas positivas no formulário. Não invente projeção de receita ou estimativa de tributo arrecadado. Para saber como redigir essa parte no relatório, veja a seção de resultado da ação.

Percepção do estudante: o que se aprende escrevendo

Trecho do exemplo fictício: "A principal dificuldade foi traduzir termos como 'obrigação acessória' e 'CNAE' sem simplificar a ponto de perder a precisão. Percebi que dominar a técnica não basta se não consigo comunicá-la a quem não teve a mesma formação. Também aprendi a separar o papel de quem orienta do papel de quem executa: em vários momentos, feirantes pediram que eu 'fizesse' o cadastro por eles, e precisei explicar que a oficina era informativa."

Comentário: a percepção não é um resumo do projeto. É um relato em primeira pessoa sobre o que mudou na compreensão do aluno. Os melhores textos de percepção mostram um momento de tensão ou dúvida — como o pedido para "fazer o cadastro" — e como o estudante lidou com ele dentro do limite ético da graduação.

Não transforme a percepção em autoelogio. Evite frases como "foi uma experiência enriquecedora" sem concretizar o quê, exatamente, enriqueceu. Para orientações de redação dessa seção, consulte o guia de percepção das atividades extensionistas.

Como adaptar este exemplo ao seu roteiro

Este exemplo foi construído para uma oficina única com público adulto em espaço comunitário. Se o seu roteiro pede uma série de encontros, um público diferente (estudantes de escola pública, idosos, catadores de recicláveis) ou um formato on-line, a estrutura de seções permanece, mas o conteúdo muda.

O que não muda: o limite profissional. Qualquer que seja o público ou o formato, a ação de extensão em Ciências Contábeis na graduação orienta, esclarece e educa. Ela não escritura, não assina, não emite parecer e não realiza serviço privativo. Se o roteiro parecer exigir algo além disso, procure a coordenação do curso antes de executar.

Por fim, cada instituição organiza o roteiro de um jeito: alguns pedem justificativa antes do objetivo, outros exigem referencial teórico, outros não. Não existe modelo universal. Abra o documento disponível no seu ambiente acadêmico, identifique os campos obrigatórios e preencha na ordem solicitada. Use este exemplo como referência de linguagem e de recorte, não como formulário a copiar.

Fontes e cuidados editoriais

Este guia apresenta orientações gerais. Para critérios, formulários e prazos, use sempre o roteiro da sua instituição e documentos oficiais relacionados à atividade.

Consultar informações do MEC